Guia Histórico · Atualizado em Junho 2026

História dos Quadrinhos Brasileiros: Do Tico-Tico à IA (1905-2026)

Mais de um século de tradição. Esse é o panorama honesto — dos primeiros gibis na virada do século XX ao recorde de mercado em 2025, passando pela ditadura militar, pela renascença autoral e pela cena indie atual.

A resposta em um parágrafo

A história dos quadrinhos brasileiros começa oficialmente em 1905 com O Tico-Tico — primeira revista em quadrinhos brasileira, com participação de Angelo Agostini. Nos anos 1940-60, a EBAL (fundada em 1945 por Adolfo Aizen) dominou o mercado com até 40 títulos por mês. Em 1959-1963, Mauricio de Sousa criou Mônica e Cebolinha — hoje a maior franquia brasileira. Nas décadas de 1960-80, Henfil, Ziraldo e a equipe de O Pasquim usaram quadrinhos como resistência política durante a ditadura militar. Os anos 80-90 trouxeram a renascença autoral com Angeli, Laerte e Glauco (assassinado em 2010). Em 2025, o mercado brasileiro publicou 676 volumes em 261 séries por 16 editoras — recorde histórico (BBM). Hoje, com ferramentas de IA, criar HQ é mais acessível do que nunca.

As eras dos quadrinhos brasileiros

Oito momentos que moldaram o quadrinho brasileiro, do final do século XIX ao mercado de 2026.

1905-1962 — A primeira HQ brasileira (O Tico-Tico)

O Tico-Tico, lançada em 1905, é a primeira revista em quadrinhos do Brasil. Foi concebida por Renato de Castro, com logotipo criado por Angelo Agostini (lendário caricaturista político brasileiro) e financiamento de Luís Bartolomeu de Souza e Silva, proprietário da revista O Malho. Tiragem inicial: 11.000 exemplares. A revista circulou até 1962. Marco fundacional — antes dela, charges políticas e revistas ilustradas já existiam no país, mas O Tico-Tico inaugurou o formato de revista infantil com quadrinhos.

1945-1960 — O golden age da EBAL

A Editora Brasil-América Limitada (EBAL) foi fundada em 1945 por Adolfo Aizen. Nas décadas de 1950 e 1960, a editora publicava mais de 40 títulos por mês, com tiragem média próxima de 150 mil exemplares por título. A EBAL importava e traduzia HQ americanas (Walt Disney, super-heróis) e publicava autores nacionais em paralelo. Marcou gerações de leitores brasileiros nas bancas semanais e mensais.

1959-presente — Mauricio de Sousa e a maior franquia brasileira

Mauricio de Sousa (nascido em 27 de outubro de 1935) começou como repórter no jornal Folha da Manhã antes de criar tirinhas. A Mônica apareceu pela primeira vez em 1963, originalmente como personagem secundária na tira do Cebolinha. Em 1970, ganhou revista própria em cores. Cebolinha, Cascão, Magali, Chico Bento, Horácio entre os personagens fundamentais. Maior franquia brasileira de quadrinhos por margem ampla — distribuição via Panini hoje. A Turma da Mônica Jovem, em estilo mangá, foi lançada em agosto de 2008 e vendeu 1,5 milhão de exemplares nas quatro primeiras edições.

1960-2024 — Ziraldo e O Menino Maluquinho

Ziraldo Alves Pinto (24 de outubro de 1932 — 6 de abril de 2024) é uma das figuras mais influentes da cultura brasileira do século XX. Turma do Pererê, lançada em 1960, é considerada a primeira HQ brasileira de autor único em cores. O Menino Maluquinho (1980) tornou-se um dos maiores clássicos da literatura infanto-juvenil brasileira. Ziraldo trabalhou em charge política, ilustração, tira de jornal e literatura, com presença regular em O Pasquim durante a ditadura militar.

1969-1988 — Henfil e os quadrinhos como resistência

Henrique de Souza Filho, conhecido como Henfil (5 de fevereiro de 1944 — 4 de janeiro de 1988), foi um dos maiores cartunistas políticos da história brasileira. Trabalhou em O Pasquim a partir de 1969 e no Jornal do Brasil. Criou Os Fradinhos em 1970 (depois Cumprido, Bãozinho e Baixim). Seus cartuns durante o regime militar (1964-1985) representam um marco do uso de quadrinhos como ferramenta de crítica política no Brasil. Hemofílico, Henfil morreu em janeiro de 1988 de AIDS contraída por transfusão de sangue. Suas Cartas para Mãe Açucena e Cartas para Frei Betto são entre os textos epistolares mais lidos do período.

1980-2000 — A renascença autoral

Os anos 1980 e 1990 trouxeram uma renascença autoral nos quadrinhos brasileiros, marcada por três nomes da Folha de S.Paulo. Angeli (Arnaldo Angeli Filho, nascido em 31 de agosto de 1956) criou Chiclete com Banana — tira diária na Folha e revista independente lançada em 1985 — com personagens icônicos como Rê Bordosa, Bob Cuspe, Meiaoito e Wood & Stock. Laerte Coutinho (nascida em 1951) iniciou Piratas do Tietê na Folha em 1991; em 2009-2010 anunciou publicamente que se identifica como crossdresser e posteriormente como mulher trans, fundando a ABRAT (Associação Brasileira de Travestis, Transexuais e Transgêneros) em 2012. Glauco Vilas Boas (10 de março de 1957 — 12 de março de 2010) criou Geraldão e o Casal Neuras; foi assassinado em Osasco/SP em circunstâncias chocantes — o agressor, Carlos Eduardo Sundfeld Nunes (Cadu), era frequentador da Igreja Céu de Maria (Santo Daime) e morreu na cadeia em 2016. O filho de Glauco, Raoni, também foi assassinado no mesmo ataque.

1990-2010 — A era do mangá nacional

A explosão do anime no Brasil nos anos 1990 (Os Cavaleiros do Zodíaco na Manchete em 1994, Sailor Moon em abril de 1996, Dragon Ball Z em 1999) criou uma audiência leitora ávida por mangá. A Editora JBC foi fundada em Tóquio em 1992 por Masakazu Shoji e opera no Brasil desde 1995. A Panini Planet Manga estabeleceu-se como líder de mercado. Em paralelo, surgiu o "mangá nacional" — autores brasileiros desenhando no estilo japonês, publicados pela Yellow Magazine, JBC e outras editoras. A Mythos editora popularizou o western italiano Tex no nicho adulto. Para mais sobre as categorias de mangá, veja nosso guia da diferença entre shoujo, shounen, seinen e josei.

2022-2026 — A indústria atual

Em 18 de março de 2022, a Companhia das Letras adquiriu 70% da JBC — marco da consolidação do mercado editorial brasileiro. O ano de 2025 estabeleceu recorde histórico para o mercado de mangá no Brasil, segundo a Biblioteca Brasileira de Mangás (BBM): 676 volumes publicados em 261 séries diferentes por 16 editoras ativas. Panini Planet Manga lidera com 394 volumes (58,3% do mercado); JBC publica 153 volumes (22,6%); NewPOP publica 55. MPEG, Pipoca & Nanquim, Devir e outras menores completam o cenário. A Pipoca & Nanquim, fundada em 10 de março de 2017 por Alexandre Callari, Bruno Zago e Daniel Lopes, venceu o Troféu HQ Mix de "Editora do Ano" cinco vezes consecutivas (2018-2022).

Os principais criadores

Seis nomes essenciais para entender a tradição brasileira de quadrinhos — três do humor político, três do mainstream e do alternativo.

NomePeríodoFunçãoNota
Mauricio de Sousa1935-presenteCartunista, empresárioCriador da Turma da Mônica. Mauricio de Sousa Produções é a maior franquia brasileira de quadrinhos.
Ziraldo (Alves Pinto)1932-2024Cartunista, autor, ilustradorCriador de Turma do Pererê (1960) e O Menino Maluquinho (1980). Faleceu em 6 de abril de 2024.
Henfil (Henrique de Souza Filho)1944-1988Cartunista políticoOs Fradinhos (1970). Faleceu de AIDS por transfusão em 4 de janeiro de 1988.
Angeli (Arnaldo Angeli Filho)1956-presenteCartunista, autorChiclete com Banana, Rê Bordosa, Bob Cuspe. Folha de S.Paulo desde os anos 1980.
Laerte Coutinho1951-presenteCartunista, autoraPiratas do Tietê (1991). Mulher trans desde 2009-2010. Fundou ABRAT em 2012.
Glauco Vilas Boas1957-2010CartunistaGeraldão, Casal Neuras. Assassinado em Osasco em 12 de março de 2010 junto com seu filho Raoni.

As editoras hoje

Quem publica quadrinhos no Brasil em 2026 — com dados de mercado verificados pela Biblioteca Brasileira de Mangás (BBM) para o ano de 2025.

Panini Planet Manga

Líder de mercado

394 volumes publicados em 2025 (58,3% do mercado). Distribui catálogo Maurício de Sousa Produções, One Piece, Demon Slayer, Jujutsu Kaisen, Spy x Family, Dragon Ball, Naruto.

JBC

Segunda maior, especializada em shoujo

Fundada em Tóquio em 1992 por Masakazu Shoji; opera no Brasil desde 1995. 153 volumes em 2025 (22,6%). Publica Sailor Moon, CardCaptor Sakura, Fruits Basket. Pertence à Companhia das Letras desde 18 de março de 2022.

NewPOP

Editora de nicho/alternativo

55 volumes em 2025. Foco em light novels e títulos alternativos. Catálogo menor mas curado.

Pipoca & Nanquim

Editora indie premiada

Fundada em 10 de março de 2017 por Alexandre Callari, Bruno Zago e Daniel Lopes. Venceu o Troféu HQ Mix de Editora do Ano 5x consecutivas (2018-2022).

Devir

Editora diversificada

Catálogo de quadrinhos americanos, europeus e mangá. Inclui títulos cultuados no segmento alternativo.

EBAL (histórica, 1945-fim do séc. XX)

Editora golden age

Editora Brasil-América Limitada — fundada em 1945 por Adolfo Aizen. Publicava 40+ títulos por mês nas décadas de 50 e 60.

A cena indie e webcomics (2010-2026)

Além das grandes editoras, a cena independente brasileira é vibrante e diversificada.

  • 2017-presentePipoca & Nanquim publica autores brasileiros e clássicos importados
  • 2017-presentePlataformas internacionais (Tapas, WEBTOON CANVAS) abrem espaço para webcomics brasileiros
  • 2018-presenteSubstack e Patreon viabilizam patronage direto para HQ-istas brasileiros
  • 2003-presenteFestivais consolidados: Comic Con Experience São Paulo (2014-), FIQ Belo Horizonte (1991-), Anime Friends (2003-)
  • Cena DIY de zines mantém-se forte em São Paulo, Rio, Porto Alegre
  • 2024-2026Ferramentas de IA democratizam criação visual para quem tem história mas não desenha

O quadrinho brasileiro hoje — em uma fala

  • Maior diversidade editorial da história — 16 editoras ativas em 2025
  • Recorde de publicação em 2025 — 676 volumes em 261 séries
  • Mangá importado domina volumes, mas autores brasileiros têm espaço crescente em todas as editoras grandes
  • Indústria adulta, em consolidação — aquisição da JBC pela Companhia das Letras em março de 2022 marca o interesse de grandes grupos editoriais
  • Cena indie premiada — Pipoca & Nanquim venceu o Troféu HQ Mix de Editora do Ano 5x consecutivas
  • Próxima onda: ferramentas de IA democratizam a criação visual para quem tem história mas não habilidade de desenho

Quer criar quadrinhos brasileiros hoje?

Tradicional

Clip Studio Paint EX é o padrão da indústria (a partir de US$4,49/mês). Krita é alternativa gratuita open source. Requer desenho e meses de aprendizado, mas oferece controle criativo total — o caminho clássico dos grandes nomes brasileiros.

HQ com IA

COMICPAD oferece 11 estilos de arte (incluindo mangá, anime, manhwa, super-herói, noir, ficção científica, fantasia, terror e mais) com geração automática de história e consistência de personagens. 30+ idiomas incluindo português brasileiro. Próximos passos: leia /criar-historia-em-quadrinhos-com-ia para o passo a passo em português, ou /hq-ia para uma introdução curta.

Webcomics e publicação

Tapas, WEBTOON CANVAS, Substack e Patreon abrem caminhos de distribuição direta para HQ-istas brasileiros. Comic Con Experience São Paulo, FIQ Belo Horizonte e Anime Friends são vitrines presenciais. Para webtoon especificamente, veja /como-fazer-webtoon.

Perguntas frequentes

Qual foi a primeira HQ brasileira?

O Tico-Tico, lançada em 1905, é considerada a primeira revista em quadrinhos do Brasil. Foi concebida por Renato de Castro, com logotipo criado por Angelo Agostini e financiamento de Luís Bartolomeu de Souza e Silva (proprietário da revista O Malho). Tiragem inicial: 11.000 exemplares. Circulou até 1962. Fontes: Plenarinho/Câmara dos Deputados; Pesquisa Fapesp.

Quem inventou a Turma da Mônica?

Mauricio de Sousa criou a Mônica em 1963 (originalmente como personagem secundária na tira do Cebolinha). Em 1970, a Mônica ganhou revista própria em cores. Hoje a franquia inclui Cebolinha, Cascão, Magali, Chico Bento, Horácio e dezenas de outros personagens — distribuída pela Panini. A Turma da Mônica Jovem, em estilo mangá, foi lançada em agosto de 2008.

O que foi O Pasquim?

Semanário satírico-político fundado em 1969 — durante o regime militar — que reuniu cartunistas, escritores e jornalistas dispostos a criticar o governo dentro dos limites possíveis (com cobertura intensa da censura). Ziraldo, Henfil, Jaguar e outros publicavam regularmente. Marco do uso do humor e do quadrinho como ferramenta de resistência política no Brasil. Circulou intermitentemente até os anos 1990.

Existe mangá brasileiro?

Sim — "mangá nacional" designa obras de autores brasileiros desenhadas no estilo japonês. Editoras como JBC, Yellow Magazine e outras publicam séries de autores brasileiros desde os anos 2000. A Turma da Mônica Jovem (Panini, agosto 2008, 1,5 milhão de exemplares nas 4 primeiras edições) é o exemplo mais conhecido de adaptação de IP brasileiro para o estilo mangá. A explosão do anime na TV brasileira nos anos 1990 (Os Cavaleiros do Zodíaco em 1994, Sailor Moon em 1996, Dragon Ball Z em 1999) criou a audiência que sustenta esse mercado.

Quanto custa fazer um quadrinho no Brasil hoje?

Três caminhos. Tradicional digital com Clip Studio Paint EX: software a partir de US$4,49/mês mais tablet (R$300-R$15.000). Comissionar artista: rates brasileiros variam amplamente (não há tabela sindical para o segmento); freelancers via Behance e Instagram pedem R$200-R$2.000+ por página. HQ com IA: COMICPAD a partir de US$6,99/mês (cerca de R$35), com 11 estilos disponíveis. Para o detalhamento completo, veja /comic-book-art-cost (em inglês).

Onde compro quadrinhos brasileiros?

Várias opções. Livrarias físicas (Saraiva onde aberta, Travessa, livrarias regionais). Online: Amazon Brasil, Submarino, Americanas, Estante Virtual (mercado de segunda mão). Editoras vendem diretamente: panini.com.br/planet-manga, editorajbc.com.br, newpop.com.br, mauriciodesousa.com.br. Para gibis vintage e edições raras: Estante Virtual e marketplaces como MercadoLivre. Brasil publicou 676 volumes em 2025 — recorde histórico (BBM).

Quem foi Henfil?

Henrique de Souza Filho (5 de fevereiro de 1944 — 4 de janeiro de 1988), conhecido como Henfil, foi um dos maiores cartunistas políticos brasileiros. Criou Os Fradinhos em 1970 (Cumprido, Bãozinho e Baixim). Trabalhou em O Pasquim e no Jornal do Brasil durante o regime militar, usando humor e quadrinhos como ferramentas de crítica. Hemofílico, contraiu AIDS por transfusão de sangue e morreu em janeiro de 1988. Suas Cartas para Mãe Açucena permanecem entre os textos epistolares mais lidos da literatura brasileira do período.

O mercado brasileiro de quadrinhos está crescendo?

Sim, com força em 2025-2026. Segundo a Biblioteca Brasileira de Mangás, o mercado brasileiro publicou 676 volumes em 261 séries por 16 editoras em 2025 — recorde histórico. Panini lidera com 58,3% do mercado; JBC tem 22,6%. A aquisição de 70% da JBC pela Companhia das Letras em março de 2022 indica que grandes grupos editoriais estão apostando no segmento. A cena indie (Pipoca & Nanquim, autores em Tapas/WEBTOON, Substack/Patreon) está vibrante. Ferramentas de IA estão democratizando a criação para quem tem história mas não habilidade de desenho.

Saiba mais

Última revisão: Junho 2026. Fontes: Plenarinho/Câmara dos Deputados (O Tico-Tico 1905); Pesquisa Fapesp (EBAL e início das HQs no Brasil); Itaú Cultural (biografias de Henfil, Angeli); eBiografia (Henfil); InfoEscola (Laerte); Brasil de Fato (obituário de Ziraldo, 6 abril 2024); Correio Braziliense (caso Glauco/Cadu); Wikipedia pt-BR (Turma da Mônica Jovem, Pipoca & Nanquim); PublishNews (aquisição da JBC pela Companhia das Letras, 18 março 2022); Biblioteca Brasileira de Mangás (mercado 2025); Fora do Plástico (676 volumes em 2025); COMICPAD /pricing.

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